Entenda o acordo dos EUA para explorar petróleo na Venezuela
Os Estados Unidos anunciaram na última sexta-feira (28/08) um acordo com a Venezuela que pode garantir a Washington acesso a cerca de 20% das reservas comprovadas de petróleo do país sul-americano. Apresentada pelo presidente Donald Trump como o "maior acordo petrolífero da história", a iniciativa envolve 17 campos com potencial estimado em 65 bilhões de barris e coloca no centro da operação a petroleira North American Blue Energy Partners (Nabep), controlada pelo empresário venezuelano Alejandro Betancourt.
O anúncio ocorre cerca de oito meses após a captura de Nicolás Maduro por forças americanas e aprofunda a reaproximação entre Washington e o governo interino liderado por Delcy Rodríguez. Segundo a Casa Branca, o acordo permitirá aos Estados Unidos ampliar a influência sobre parte relevante da produção petrolífera venezuelana e reforçar suas reservas estratégicas de petróleo.
Pelos termos divulgados por Washington, a Nabep receberá os direitos de exploração dos campos, enquanto o governo americano terá uma participação de 35% na estrutura criada para administrar os ativos. Os EUA também terão acesso garantido a 20% da produção a preço de custo e direito de preferência para comprar o petróleo restante.
A iniciativa envolve cifras bilionárias. Segundo a Nabep e o governo venezuelano, o projeto poderá atrair mais de 100 bilhões de dólares em investimentos para a recuperação da infraestrutura petrolífera do país. Caracas calcula ainda que a operação poderá gerar mais de 209 bilhões de dólares em receitas tributárias ao longo de sua vigência.
Os detalhes do acordo ainda estão em sigilo e alguns pontos divergem. Enquanto a Casa Branca fala em uma concessão de 100 anos, Delcy Rodríguez afirmou que o projeto terá validade de 25 anos.
O que se sabe sobre os envolvidos
A Nabep é a principal beneficiária do acordo. A companhia já atua no setor petrolífero venezuelano e deverá ampliar significativamente sua presença se o acordo prosperar, tornando-se a segunda maior exploradora de petróleo comprovado no mundo, atrás apenas da Saudi Aramco.
A empresa é controlada pelo empresário venezuelano Alejandro Betancourt. Ele foi alvo de investigações por autoridades dos Estados Unidos e da Europa devido a negócios com governos venezuelanos no passado, mas nunca chegou a ser formalmente acusado. Em comunicado divulgado após o anúncio, Betancourt afirmou que a Venezuela é um país "abençoado com abundância de recursos naturais" e que o acordo permitirá desenvolver esse potencial "para o grande benefício de venezuelanos e americanos".
A participação de Betancourt é observada com cautela por parte do mercado. Uma fonte envolvida nas negociações de novos projetos de energia afirmou à agência de notícias Reuters que algumas empresas interessadas em investir na Venezuela querem evitar uma situação em que precisem "sentar à mesa" com o empresário.
O entendimento entre Washington e Caracas também chama atenção pelo envolvimento direto do governo americano. A participação dos Estados Unidos ficará sob responsabilidade do Escritório de Capital Estratégico do Pentágono, enquanto o acordo foi assinado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, e pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth. Além disso, esse envolvimento estatal cria um cenário em que empresas privadas americanas tenham que enfrentar a concorrência do próprio governo dos EUA pelo petróleo na Venezuela.
Para Washington, o acordo também representa uma forma de reduzir a influência de China e Rússia sobre o setor petrolífero venezuelano. Segundo autoridades americanas citadas pela agência de notícias Reuters, parte dos campos incluídos na operação era anteriormente explorada por empresas chinesas, inclusive uma estatal, e por uma companhia russa, o que permitiria redirecionar uma parcela da produção que tinha como destino a Ásia.
A movimentação provocou reação de Pequim. Nesta terça-feira (01/09), o Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que os "direitos e interesses legítimos da China na Venezuela devem ser salvaguardados" e ressaltou que a cooperação entre os dois países está protegida pelo direito internacional.
O que se sabe sobre as promessas do projeto
Washington e Caracas apresentam o acordo como uma oportunidade para revitalizar a indústria petrolífera venezuelana.
Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez rejeitou as críticas de que o país estaria cedendo seus recursos naturais aos Estados Unidos. "Uma coisa deve ficar absolutamente clara: a Venezuela mantém a propriedade e a soberania sobre seus recursos", afirmou. Segundo ela, o objetivo é transformar o país em "uma potência energética, um grande produtor de petróleo, um exportador importante de gás e um grande desenvolvedor petroquímico nacional".
Trump também tem defendido a iniciativa sob a perspectiva da segurança energética. "Uma das coisas que eu quero fazer com todo esse petróleo que agora temos é preencher as reservas estratégicas", declarou o presidente americano ao comentar o acordo.
A Casa Branca sustenta ainda que o aumento da produção venezuelana poderá contribuir para aliviar pressões sobre os preços da energia nos Estados Unidos, em meio aos choques causados pela guerra travada por EUA e Israel no Irã. O conflito gerou pressão inflacionária no país, às vésperas das eleições de meio de mandato que poderão custar a Trump a maioria que ele detém hoje no Congresso.
O que ainda não está claro
Apesar do potencial da operação, especialistas alertam que recuperar a indústria petrolífera venezuelana será um processo longo e custoso.
Após anos de subinvestimento, sanções e deterioração da infraestrutura, a produção do país permanece muito abaixo dos níveis registrados no início dos anos 2000. Atualmente, a Venezuela produz cerca de 1,2 milhão de barris por dia, distante dos aproximadamente 3 milhões de barris diários alcançados há cerca de 25 anos.
"Você precisaria de investimentos significativos e do conhecimento técnico de empresas como Exxon e ConocoPhillips", afirmou à Reuters Alejo Czerwonko, diretor de investimentos para mercados emergentes do banco suíço UBS. Para ele, uma das principais questões é como atrair grandes petroleiras para um ambiente ainda marcado por incertezas regulatórias e políticas.
A recuperação da produção também não deverá ter efeitos imediatos sobre os preços dos combustíveis. "Pode ser útil no longo prazo, mas não fará nada para mudar o preço da gasolina no posto", afirmou Amy Myers Jaffe, da Universidade de Nova York, à agência de notícias Associated Press.
Também há dúvidas sobre a segurança jurídica do projeto. Empresas como ExxonMobil e ConocoPhillips deixaram a Venezuela após as nacionalizações promovidas durante o governo de Hugo Chávez e continuam aguardando melhor estabilidade regulatória e respeito aos contratos como condições para ampliar investimentos no país.
fcl/ra (Reuters, AFP, AP, ots)
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Matéria produzida com curadoria editorial assistida por IA, a partir de pauta de www.dw.com.